Showing posts with label sócrates. Show all posts
Showing posts with label sócrates. Show all posts

Tuesday, March 20, 2007

SINOPSE SOCRÁTICA

CINE-TUGA: como resumirias Rio Turvo, o filme?
Edgar Pêra: O que entendes por resumo?
CINE-TUGA: Um sumário?…
Edgar Pêra: É um raio de um problema sumariar um filme.
CINE-TUGA(insistente): Mas a história como é?
Edgar Pêra (insidioso): É um raio de um problema. Como resumirias tu?
CINE-TUGA: Fácil. Um Topógrafo (Nuno Melo) chega à margem de um rio onde os homens destroem a paisagem onde se irá erguer “o maior aeroporto da Europa”. Naquele mundo de homens sem ilusões vive Leonor (Teresa Salgueiro), a “Flôr-do-Pântano”, a protegida do socrático Director (José Wallenstein) que, com Platão, o seu bode de estimação, dirige as invisíveis obras.
Edgar Pêra (exasperado): Isso é apenas o pano de fundo onde o filme se projecta.
CINE-TUGA: Mas podes dizer-nos sobre o que se trata?
Edgar Pêra: Trata de um certo desprendimento da realidade.
CINE-TUGA: De que realidade?
Edgar Pêra: Tanto o conto de Branquinho da Fonseca como o filme tratam de um certo desprendimento da realidade, que todos conhecemos em maior ou menor grau.
CINE-TUGA: Então podia ser em qualquer altura…
Edgar Pêra: Exacto! E em qualquer lugar, ou pelo menos num certo tipo de lugares.
CINE-TUGA: Isso também te permitiu outra liberdade ao adaptar o conto?
Edgar Pêra: Sim, nos anos 40 já se falava na construção do “maior aeroporto da europa.” Não foi preciso actualizar a narrativa do Branquinho.
CINE-TUGA: É um filme romântico e bizarro? (desconfiado)
Edgar Pêra: Diz-me tu.
CINE-TUGA (muito assertivo): Pois!
Edgar Pêra: Também é musical. São os trabalhadores que fornecem a mão de obra sonora: as guitarradas dos Dead Combo e de José Pracana, os fados de Ricardo Ribeiro e do Manuel João Vieira e a bossa nova do JP Simões. E a voz da Teresa, claro. Como definirias então o filme?
CINE-TUGA: Uma cine-badalada neo-platónica!
Edgar Pêra: Isso é um slogan.

Thursday, March 15, 2007

POST-PLATÓNICO

CINE-TUGA entrevista Edgar Pêra
Parte zero

Ciine-Tuga: No conto de Branquinho da Fonseca, o bode chama-se Sócrates. Porque é que mudaste o nome para Platão ?

Edgar Pêra- O que o me interessou no conto do Branquinho da Fonseca foi a possibilidade de imaginar aquela história em qualquer época. Para evitar que houvesse qualquer tipo de confusão com os tempos de hoje, o bode passou a chamar-se Platão.
E Platão sempre tem um ditongo, é uma palavra tipicamente portuguesa. E Portugal é um país quase platónico.

Ciine-Tuga: Mas o destino de Sócrates e Platão é bem diferente. Não te parece que estás a deturpar o sentido original do conto, ou pelo menos de uma parte altamente simbólica do conto?

Edgar Pêra - Acho que saber como morreu uma figura mítica não é importante para um filme. Sabemos que Platão existiu. Quanto a Sócrates ainda não sabemos. (risos) Mas a figura do bode é capital para o filme. Houve outras cenas com o bode que até foram acrescentadas, nem sequer figuravam no conto. Por outro lado, como os diálogos no livro são escassos, recorri frequentemente aos Diálogos Sobre a Justiça de Platão. Pode dizer-se também que é um filme quasi-platónico. Assim como o aeroporto que se pretende construir. Quer no filme quer no conto.