CINE-TUGA: O director das obras do aeroporto (José Wallenstein) tem uma fixação bizarra no bode Platão. Rio turvo é um filme de sexualidades desviantes?
Edgar Pêra: É um filme à antiga. Nem pinga de sangue, nem de sexo.
CINE-TUGA: Mas promete-se.
Edgar Pêra: Muito.
CINE-TUGA: Um país de promessas pede um filme de desejos e frustrações?
Edgar Pêra: Não faço ideia. Mas não tive qualquer intenção de exibir graficamente esses desejos. Mostrar sim, as angústias de não ver uma promessa cumprida.
CINE-TUGA: Quase parece um statement político: promessas não cumpridas…
Edgar Pêra: Mas não estou a falar de eleiçoes! Rio Turvo é um filme sem qualquer tipo de pretensão moralizante.
CINE-TUGA (sardónico): Independente e desalinhado como o Branquinho da Fonseca?
Edgar Pêra (estóico): Quando se fala do “maior aeroporto da Europa” só se pode estar a falar de um país pequeno. Branquinho da Fonseca ia directo aos assuntos sem doutrinar.
CINE-TUGA: Mas todo filme parece girar em torno de coisas invisíveis. As obras, os amores… É um filme sobre a invisbilidade? (petulante)
Edgar Pêra (esfíngico) : Quase. Mas trabalhar sem contrato já era uma realidade nos anos quarenta. E também era sobre isso que ele escrevia. O que não quer dizer de forma alguma que o Branquinho Fonseca fosse um neo-realista. Nem neo-surrealista.
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Tuesday, March 27, 2007
Sunday, March 18, 2007
POST-PRODUÇAO

POST – PRODUÇÃO
CINE-TUGA: Como foi feito o filme?
Edgar Pêra: À mão. Com o investimento de todos o que participaram. Com o dinheiro que o produtor arriscou. Sem qualquer tipo de subsídios. Os actores foram pagos simbolicamente. Apenas tivemos apoio da Universidade Lusófona e das Câmaras da Azambuja e do Cartaxo. E dos Bombeiros.
CINE-TUGA: Nota-se um certo ressentimento da tua parte…
Edgar Pêra: Nã…mas isto também não é maneira de se fazer cinema profissional. Se não houver outra maneira também não posso ficar parado. E não me canso de citar uma frase do conto de Branquinho da Fonseca : “Um homem parado não serve para nada.”
CINE-TUGA: Em que fase se encontra o filme? Vai ser mais um daqueles casos típicos em que acabas o filme umas horas antes de o exibir? (olhar de soslaio)
Edgar Pêra: É altamente improvável, dado que se trata de um filme rodado em HD (Halta Definição) e depois de finalizado torna-se mais complexa a remontagem. No entanto… (sorriso matreiro)
CINE-TUGA: Não tens medo de não conseguir ter o filme pronto a tempo?
Edgar Pêra: Não (assertivo). Mas um filme não depende apenas do seu autor. Ainda estamos à procura de apoios para podermos fazer a post-produção em condições. Nada que nos faça desistir.
CINE-TUGA: Depois dos 3 prémios de Movimentos Perpétuos no IndieLisboa do ano passado haverá lugar para surpresas com o Rio Turvo?
Edgar Pêra: É um filme radicalmente diferente de outros que fiz.
CINE-TUGA: Que tipo de filme é então Rio Turvo?
Edgar Pêra: Tipo Rio. Uma cine-badalada…
CINE-TUGA: ?
Edgar Pêra: As canções são interpretadas pelas personagens, tocadas ao vivo nos cenários do filme.
CINE-TUGA: Daí a escolha de Teresa Salgueiro para o papel de Leonor?
Edgar Pêra: Nunca teria convidado a Teresa se não soubesse que ela iria desempenhar bem a todos os níveis. É uma revelação para quem não conhece as suas capacidades interpretativas. A personagem foi enriquecida e transformou-se no ponto centrifugador das frustrações dos trabalhadores do aeroporto virtual que se constrói ao longo do filme.
CINE-TUGA: Escolheste o tema por ser actual? Andas à boleia dos temas quentes?
Edgar Pêra: Antes fosse. Já em 2002 apresentei um projecto de longa-metragem sobre futebol para ser apresentado no Euro2004, mas só me “deixam” fazer documentários. Mas não acredito em filmes feitos à boleia. E o conto foi escrito nos anos quarenta, o que atesta a intemporalidade de um tema como “o maior aeroporto da Europa” Poderia ser sobre o maior centro comercial da Europa. Somos especialistas em King Size.
CINE-TUGA: É esse então o tema do filme?
Edgar Pêra: Nem pensar. Isso é um dos temas de fundo do filme.
CINE-TUGA: Qual é o tema então?
Edgar Pêra: Já viste o filme. Conta-me tu.
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Thursday, March 15, 2007
POST-PLATÓNICO
CINE-TUGA entrevista Edgar Pêra
Parte zero
Ciine-Tuga: No conto de Branquinho da Fonseca, o bode chama-se Sócrates. Porque é que mudaste o nome para Platão ?
Edgar Pêra- O que o me interessou no conto do Branquinho da Fonseca foi a possibilidade de imaginar aquela história em qualquer época. Para evitar que houvesse qualquer tipo de confusão com os tempos de hoje, o bode passou a chamar-se Platão.
E Platão sempre tem um ditongo, é uma palavra tipicamente portuguesa. E Portugal é um país quase platónico.
Ciine-Tuga: Mas o destino de Sócrates e Platão é bem diferente. Não te parece que estás a deturpar o sentido original do conto, ou pelo menos de uma parte altamente simbólica do conto?
Edgar Pêra - Acho que saber como morreu uma figura mítica não é importante para um filme. Sabemos que Platão existiu. Quanto a Sócrates ainda não sabemos. (risos) Mas a figura do bode é capital para o filme. Houve outras cenas com o bode que até foram acrescentadas, nem sequer figuravam no conto. Por outro lado, como os diálogos no livro são escassos, recorri frequentemente aos Diálogos Sobre a Justiça de Platão. Pode dizer-se também que é um filme quasi-platónico. Assim como o aeroporto que se pretende construir. Quer no filme quer no conto.
Parte zero
Ciine-Tuga: No conto de Branquinho da Fonseca, o bode chama-se Sócrates. Porque é que mudaste o nome para Platão ?
Edgar Pêra- O que o me interessou no conto do Branquinho da Fonseca foi a possibilidade de imaginar aquela história em qualquer época. Para evitar que houvesse qualquer tipo de confusão com os tempos de hoje, o bode passou a chamar-se Platão.
E Platão sempre tem um ditongo, é uma palavra tipicamente portuguesa. E Portugal é um país quase platónico.
Ciine-Tuga: Mas o destino de Sócrates e Platão é bem diferente. Não te parece que estás a deturpar o sentido original do conto, ou pelo menos de uma parte altamente simbólica do conto?
Edgar Pêra - Acho que saber como morreu uma figura mítica não é importante para um filme. Sabemos que Platão existiu. Quanto a Sócrates ainda não sabemos. (risos) Mas a figura do bode é capital para o filme. Houve outras cenas com o bode que até foram acrescentadas, nem sequer figuravam no conto. Por outro lado, como os diálogos no livro são escassos, recorri frequentemente aos Diálogos Sobre a Justiça de Platão. Pode dizer-se também que é um filme quasi-platónico. Assim como o aeroporto que se pretende construir. Quer no filme quer no conto.
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